Verdades nuas e cruas


Uma onça no porão.

Continuação nº 7-  Inicie a leitura no nº 1

Dias depois o clima ficou agitado na fazenda, porque havia um "disse-que-disse ", de diversas pessoas afirmando que uma onça vinha invadindo a propriedade a noite, e matando vários bezerros, muitos deles foram encontrados mortos com um buraco no pescoço, por onde seu sangue fora sugado.

O animal que os teriam matado, sugava-lhes o sangue, mas não comia a carne.. Por isto a cozinheira, mãe do Izé, achava que era coisa do Saci Pererê de uma perna só, sua comadre afirmara ter visto um negrinho com uma carapuça vermelha, saltitando com uma perna só e fumando um cachimbo no meio do canavial da fazenda. Ela não tinha dúvidas; o Saci Pererê se transformava em vampiro e sugava o sangue dos bezerrinhos. Por isto naquela noite o menino moço não conseguiu pegar no sono logo, ele ficou preocupado, pensando na onça que rondava a fazenda. E perto das onze horas da noite, todos da casa começaram a escutar um barulho enorme no porão debaixo da casa onde dormiam, os cachorros latiam muito no quintal, e as galinhas faziam um barulho infernal. Ninguém teve duvidas naquele momento e, muitos falaram quase simultaneamente : "É a onça ! É a onça ! O Caetano, pai do menino moço , pegou a sua garrucha de dois canos e correu para fora, e da porta do porão via la nos fundos - apesar da escuridão - dois olhos brilhando como fogo.

__To vendo os olhos da onça lá dentro brilhando como duas brasas- falou o Caetano.

E após dizer isto, apontou sua garrucha em direção ao bicho e atirou. Durante alguns minutos todo o pessoal da casa que estava ali presente, ficou em completo silêncio. Todos pensaram que a onça fora atingida pelo tiro e morrido, não haviam mais dois olhos brilhando no fundo do porão. Então, cheios de coragem... foram lá para retira-la para fora. Mas que decepção... ! O bicho que imaginaram ser uma onça, não passava de um gambá que vinha comer ovos das galinhas que dormiam no porão.. Portanto, teriam que esperar uma outra oportunidade para pegar a tal onça, a que se supunha responsável pela morte dos bezerrinhos da fazenda. Depois, todos voltaram aos seus aposentos para dormir. Mas o menino moço demorou para pegar no sono, ele ainda estava impregnado de medo, pois continuou ouvindo uivos de um lobo, não muito longe da casa, " Aoúúú. Aoúúúú...Aoúúúú. "   Dias depois terminaram a obra na fazenda, e então o grupo de pedreiros e serventes teve de retornar à Campestre O retorno foi num domingo de madrugada, num dia que não havia caminhão - " de leite "- para transporta-los, tiveram de ir a pé... Não havia também relógios para que soubessem as horas no momento de saírem. O Caetano olhou a posição da lua no céu e concluiu que já era quatro horas da madrugada. E andaram..andaram... andaram...depois de muito tempo o menino moço pediu para que parassem para descansar... mas, o Caetano não concordou, porque um lobo uivava pertinho de onde estavam: Aouuuu.Aouuu..Aouuu !

Com muito medo apertaram os passos, e quando chegaram à Campestre, depois de caminharem quatro léguas, ai sim... o relógio da igreja matriz da cidade batia quatro baladas...Somente então; era quatro horas da madrugada..

O livro é "Verdades nuas e cruas" é do autor deste blog. Breve virá a continuação nº 8



Escrito por Manoel Caetano Donini às 13h38
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continuação nº 6

  Leia pela ordem numerica, comece no nº 1




E devido ás tristezas, logicamente que ele não  teria tão cedo, novas  inspirações para cantar musicas apaixonadas, e pensar nas moças bonitas enquanto ia rebocando paredes ou assentando tijolos. Como sabemos, ele ainda sofria por causa da falta dos carinhos da bela Tereza " irmã do Sebastião Borges" e agora os sofrimentos pela morte do seu querido bangalô.

No dia seguinte a esse acontecimento, uma música tocada no rádio ainda trouxe-lhe doloridas emoções, era o Roberto Carlos que fazia sucesso na época com a musica: " Eu cheguei em frente ao portão.. O meu cachorro me latiu sorrindo... Além da música, coincidentemente também,  ele leu num almanaque frases assim:  "Pela estrada da vida desci morros, subi ladeiras, e afinal te digo, se entre amigos encontrei cachorros, entre cachorros encontrei -te amigo" Isto fê-lo se lembrar de uma coisa que o seu próprio pai tinha dito- lhe, dias antes:"Mais vale um cachorro amigo do que um amigo cachorro ".

Depois disto ele escreveu uma mensagem numa placa de madeira que colocou no local onde o bangalô estava sepultado, com os seguintes dizeres:

"Aqui tá sepultado um cachorro bom e amigo que morreu vitima da violencia de um humano.

Nos dias sub-sequentes sumiu o brilho dos seus olhos , e logicamente ficaram dificeis os seus dias na fazenda.

Mas o tempo também é um remédio, e os dias foram passando, passando. Agora ele já começava a sentir alguma alegria quando, ao acordar pela manhã ouvia o canto dos gaviões empoleirados nuns arbustos perto da casa: " pinhéee. pinhéeee. pinhéee..

Junto ao canto dos gaviões apareciam as galinhas "d'Angola" que passeavam ao lado da casa: " tofraco...tofraco... tofraco.. tofraco.

No quarto que ele dormia na fazenda, não havia forro no teto, por isto um vão entre o respaldo da parede e o telhado, permitia que se ouvisse as conversas dos que estavam no quarto vizinho, e isto também proporcionava-lhe algum divertimento antes de dormir.

Quem dormia no quarto vizinho era o Izé, filho da cozinheira da fazenda, e a Carmem, uma bonita jovem morena que a cozinheira criara desde pequena, como filha.

A moça brigava com o Izé o tempo todo, porque apesar deles serem meio irmãos, o rapaz vivia tentando agarra-la...

Era intrigante para o menino moço a discussão deles naquela noite.. A luz da fazenda tinha se apagado devido a um problema técnico no gerador de energia elétrica, e a Carmem com medo do escuro foi se deitar na cama do Izé.

Mas num certo momento Carmem gritou furiosa:

__Pára com isto Izé !

O Izé também ficou bravo com ela e disse:

__Fica quieta sua doida, estou com as mãos na sua cabeça pra você não ficar com medo do escuro, uai !

__Mas ocê não tá com as mãos na minha cabeça, seu idiota ! - ela gritou furiosa..

O menino moço ria ao ouvir a conversa dos dois, no quarto vizinho, mas logo pegou no sono,  no gostoso colchão de palhas de milho.

No dia seguinte  ele acordou com o mugido das vacas, sendo ordenhadas no curral, o que proporcionava-lhe o prazer de tomar uma deliciosa caneca com leite, recém tirado do úbere dos animais.

Antes de iniciar as suas atividades ele se espreguiçava , enquanto olhava pela janela da casa; os gaviões dando vôos rasantes sobre um lago ladeado por um imenso taquaral.

O sol já começava a fazer estalar os gravetos na floresta próxima, e os bem-te-vis berravam nas copas das arvores: "Bem-te-vi...bem-te-vi...bem-te-vi.

 

continua




Escrito por Manoel Caetano Donini às 00h04
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A morte do bangalô.

  continuação nº 5



A vida de muitos pedreiros parece as vezes com a vida dos ciganos, estão sempre mudando de casa e lugar onde moram, à procura de novas empreitadas

Por isto que nesse momento o menino moço saia em companhia do seu pai que também era pedreiro, com destino aos " Campos" uma área rural do municipio de Campestre, onde fariam reformas nas dependências de uma fazenda.

Foram levados por um "caminhão de leite " que na ida para os campos transportava latões vazios, de leite, para recolhe-los cheios, que os pequenos produtores rural forneciam à cooperativa de lacticínios de Campestre.

A viagem costumava ser divertida, apesar de incômoda, pois o caminhão pulava muito nas estradas emburacadas de terra.

Para o menino moço era uma viagem especial, pois ele levava em sua companhia o seu cachorro chamado bangalô. Era um "vira-latas " de quarenta centímetros de altura, com pelos marrom claros, um animal que enchia de alegrias o coração do menino moço. Ele esperava divertir-se muito na fazenda, vendo o seu bangalô correndo pelos pastos, tentando caçar lebres e tatus.

A cabeça do menino moço estava cheia de sonhos, mas que seriam frustrados de uma forma que ele jamais poderia esperar. O destino não parecia favorável à sua felicidade , pois muitas coisas ruins vinham lhe sucedendo ultimamente.

Quando desceram do caminhão na entrada da fazenda, tiveram que passar pela porta de um imenso galpão onde estavam; uma gata angorá com diversos gatinhos recém nascidos.

O menino moço com seus companheiros, estavam encantados com a visão da gata amamentando os filhotinhos, mas se esqueceram que tinham em sua companhia um cachorro. Ao ver a gata com os filhotes o instinto animal do cachorro falou mais alto, e ele avançou furiosamente contra os bichanos, abocanhando e matando um dos gatinhos.

O Caetano pai do menino moço ficou extremamente nervoso naquele momento, porque uma menininha de dez anos de idade ,filha do dono da fazenda apareceu no local chorando muito ,por causa da morte do seu bichano. O ambiente tornou-se mais tenso, quando um bando de galinhas gritavam assustadas e, um papagaio num poleiro próximo falava sem parar. " Purrutaco - tataco - pega ele. Purrutaco-tataco pega ele."

Disseram que o papagaio se comportava daquele modo sempre que havia algum alvoroço ou barulhos perto dele..

O Caetano chamou o cachorro:... " vem aqui bangalô, vem bangalô O pobre animal veio ao seu encontro abanando o rabo, obviamente que, sendo um animal, não poderia ter consciência da gravidade da situação.

Caetano já tinha pegado sua arma na cintura, uma garrucha de dois canos, e de repente ouviu-se um estampido:

" Páaaa...!

Ele deu um tiro certeiro na cabeça do pobre animal, que rodopiou no ar antes de tombar ferido mortalmente ! O menino moço chorou durante quase meia hora, abraçado ao corpo do seu amigo estirado ali no chão.

É fácil imaginar como foi tristel para o menino moço o restante de sua permanência nos serviços naquela fazenda. Agora as expectativas de divertimentos e alegrias, tinham mudado para sonhos cheio de pesadelos.

 

continua



Escrito por Manoel Caetano Donini às 22h45
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continuação nº 4

 

Vitor Canhoto era um homem de trinta anos de idade que fora acometido por um um câncer na garganta, que causou-lhe muitos sofrimentos, provocando muita comoção nos moradores de Campestre.

O pobre homem tinha tantas dores e não podia comer, por isto foi se definhando a cada dia que passava. Nos últimos dias de sua vida ele passava o tempo todo tomando água num chafariz que existia numa praça, ao lado da igreja de São Benedito, onde estava também a escola principal da cidade, o Grupo Escolar Jose Custodio.

O Vitor Canhoto dizia que sua doença parecia queima-lo, e aquele lugar no chafariz conseguia refresca-lo um pouco.

O menino moço tinha até se esquecido de suas mágoas e lembranças tristes, enquanto sua mente repassava a triste sorte do Vitor Canhoto, gritando de dores enquanto bebia água no chafariz..

Campestre inteira o ouvia gritar; aiii...! aiiii...! aiiii...! aiii...!.

Quando alguém sofre muito por causa de uma doença sem esperanças de cura – como era o caso na época - a morte pode ser bem vinda, talvez até um presente de Deus. Pois foi morrendo que, o Vitor Canhoto pode descansar dos seus sofrimentos, algum tempo depois.

Mas ainda com relação as preocupações e tristes lembranças do menino moço, um outro elemento mágico é um santo remédio; o sono.

E o corpo dele não suportando mais o cansaço - devido ao árduo trabalho do dia - cedeu e logo ele estava dormindo como um justo. Acordou somente no dia seguinte com o canto das seriemas numas matas próximas da sua casa;.

" Cli.Cli.Cli.Clicli.Cliclicliii..."

Também no quintal da sua casa havia uma algazarra de um bando de rolinhas, nos galhos de um abacateiro,  elas esperavam uma oportunidade para compartilhar com os porcos o farelo que o Caetano - pai do menino moço - colocaria para eles comerem. Depois de comerem elas subiam novamente no abacateiro e exibiam o seu canto que as pessoas entendiam mais ou menos assim: " fogo apagou, fogo apagou, fogo apagou...

continua:



Escrito por Manoel Caetano Donini às 19h53
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continuação nº 3

                                      


"Sou um homem ou um saco de batatas ? E num assomo de coragem virou-se para a Tereza e disse:

__Aqui ; será que ocê pode deixar sua amiga um pouco, para que possamos bater um papo ?

Era tudo o que Tereza desejava ouvir, por isto aceitou imediatamente o convite e passaram a andar juntos no jardim. E o conquistador maroto, dentro de pouco tempo conseguiu leva-la para outro jardim que ficava na parte de trás da igreja, um local meio escuro que era o preferido dos namorados.

E logicamente, beijos e abraços marcaram o inicio de um romance entre eles...

Mas existe um ditado que diz " O que é bom dura pouco " por isto tinha que ocorrer alguma coisa para estragar a alegria e felicidade do menino moço, que até então estava se sentindo um príncipe ao lado da maravilhosa  namorada, que ele achava tão fina e bonita..

Aconteceu o seguinte: Estavam juntos há tão pouco tempo, quando Tereza falou que precisava ir embora, pois o seu irmão Sebastião Borges tinha o hábito de ir dormir as onze horas, e pedido-lhe que voltasse para casa antes dele ir dormir.

Mesmo assim foi muito grande a felicidade do menino moço, abraçado com a sua Tereza, no caminho até a casa do Sebastião Borges.

Mas ao se aproximarem da casa, Tereza faz-lhe uma nova revelação surpreendente, que deixou-o chocado e infeliz. Ela disse-lhe que aquela era a sua ultima noite em Campestre, pois no dia seguinte teria de retornar a cidade que morava.

Ao perceber a decepção e tristeza do namorando, Tereza tentou consola-lo com a promessa de voltar a Campestre brevemente, afirmou que aguardaria com ansiedade que isto acontecesse, porque estava muito feliz por terem começado a namorar...

Mas na verdade nua e crua, depois que Tereza foi-se embora para a sua cidade, os dias passaram...passaram...passaram... e ela não se comunicou mais com o menino moço, a quem dissera estar gostando tanto..

A cabeça do rapaz parecia que ia explodir de tanto que ele pensava..., tentando advinhar o que teria acontecido. Suas duvidas eram cruéis:

__Será que ela quis apenas brincar comigo ? Ou ficou decepcionada com a minha simplicidade e pobreza ?

Ou  teria me achado muito moleque, por causa da minha pouca idade? Se esta for uma das razões, gostaria de poder mostrar-lhe que está muito enganada, porque eu já sou um homem.


Se ela pudesse ver a quantidade de serviços de pedreiro que faço num único dia veria que não é coisa que alguérm que ainda é um moleque possa fazer.

E lamentavelmente haviam fundamentos nas suas duvidas, de certa forma ele tinha adivinhado as razões que motivara o cruel silêncio de Tereza.

O Sebastião Borges e sua esposa, dona Gilda, tinham enchido a cabecinha de Tereza com coisas negativas sobre o namoro deles. Disseram-lhe que não havia cabimentos, ela bonita, professora, de classe média, namorar com um moleque pedreiro, pobre, sem escolaridade, não combinava com ela - completaram.

E ela deixou-se sugestionar pelas palavras do irmão e da cunhada, pois ao retornar à sua cidade procurou esquecer o namoro que mal tinha começado, sem nada comunicar ao rapaz..

Por tudo isto podemos facilmente imaginar como estava a cabecinha do jovem enamorado, enquanto meditava no alpendre de sua casa naquela noite linda de luar, pensando sobre o comportamento de Tereza.

Mas alguns especialistas afirmam que a mente humana é dotada de mecanismos de defesa que, buscam na memória outras recordações diferentes que suplantam aquelas que estão  causando sofrimentos.

E talvez tenham sido esses mecanismos que fizeram o menino moço se encontrar agora lembrando de um outro caso ocorrido na sua cidade, quando ele ainda tinha dez anos de idade. Era a historia do Vitor Canhoto.

 

 

continua... 




 



Escrito por Manoel Caetano Donini às 12h58
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Recordações ao luar

              continuação nº 2


Mas não eram todos os dias que o menino moço podia ir ao centro de Campestre para se divertir e  flertar com os "brotos ".

Por isto quando não ia, sentava-se no parapeito do alpendre da sua casa, preferencialmente nas noites de lua cheia e; ficava sonhando acordado, deixando a sua mente passear pelo passado.

Devassando a sua mente vamos descobrir as coisas que passavam pelos seus pensamentos.

A primeira lembrança era da Tereza "irmã do Sebastião Borges ", ela morava em outra cidade, mas vinha de vez em quando à Campestre para visitar a casa do seu irmão. Então aproveitava para dar umas voltas pelo jardim de Campestre, onde poderia rever amigos e preferencialmente o menino moço. Aquele vai- e-vem tão delicioso que acontecia no jardim era o momento ideal para os rapazes flertar com as moças- olhar para elas piscando os olhos, chamavam de flertar.

Uma coisa deliciosa que geralmente acabava em namoro.

Devemos dizer a bem da verdade nua e crua que; o menino moço já andava bastante ansioso para arrumar uma namorada, mas ele era muito tímido e tinha dificuldade para se comunicar com as moças.

Ele tinha uma queda por Tereza " irmã do Sebastião Borges " mas os predicados dela desencorajavam-no. Ela era professora, de condições sócio/cultural bastante superior a ele. Mas mesmo assim ele piscava o olho para ela quando a encontrava no "vai -e-vem do jardim ", e ela correspondia aos seus flertes. Por esta razão, num dos encontros, não se contendo, o menino moço falou propositalmente em voz alta com um amigo chamado Nadir Martins, naturalmente querendo que a Tereza escutasse:

__Aqui ; meu amigo Nadir Martins, na próxima vorta que a gente der no jardim eu vou falar com essa cabocla !

Mas como a coragem continuava faltando-lhe, então ele resolveu ir ao bar que ficava perto do jardim para tomar uma cachaça. Tinham ensinado-lhe que era muito bom para ajudar a criar coragem, principalmente no momento de pedir a uma garota para namorar.

__Bota uma cachaça ai pra mim Dominguinho ! - era o nome do dono do bar.

A pinga foi colocada no copo dele e ele bebeu tudo num único trago, mas fez uma cara horrível, tendo que assoprar repetidas vezes o ar com a boca aberta - parecia que o álcool estava queimando sua boca.

O Domiguinhos ficou espantado, pois até aquele momento o pedreirinho tinha tomado apenas refrigerantes em seu bar..

Mas realmente o efeito do álcool encheu-o de coragem, pois ele voltou ao jardim disposto a pedir a Tereza pra namorar com ele.

Porém não foi necessário, porque Tereza surpreendeu-o tomando a iniciativa de romper o bloqueio que havia entre eles.


Ela usou a mesma tática dele, quando iam se encontrando novamente no meio do caminho, no jardim, ela virou-se para a sua amiga Malvina que a acompanhava naquele passeio e, falou-lhe também em voz alta:

__Que moreninho lindo Malvina ! É um destes que eu gostaria de estar apresentando a minha mãe como seu genro. Pena que ele seja tão tímido !

. Foi até engraçado a reação do menino moço diante daquela declaração de Tereza, e ele falou ao amigo Nadir Martins

__Eta mundão véio de Deus - me belisca companheiro Nadir Martins, para que eu tenha certeza que não estou sonhando. Uai !

Ele mascava chicletes para disfarçar o cheiro de pinga na sua boca, e mesmo ainda sob os efeitos encorajadores do álcool sentiu suas pernas bambas naquele momento, mesmo assim raciocinou:

 continua:



Escrito por Manoel Caetano Donini às 17h09
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Verdades nuas e cruas.

                                          1º Parte: Um menino moço e o seu trabalho. 

  

Inicio- nº 1 


 


Era um menino precocemente dedicado ao trabalho, por isto ganhara o apelido de menino moço..

Aos quatorze anos ele já era pedreiro, e trabalhava o dia inteiro naquele serviço sujo e pesado, assentando tijolos e tijolos naquelas paredes cumpridas que iam formando a casa que ele estava construindo.

Depois que as paredes atingiam a altura do respaldo e o telhado era colocado, vinha a fase do revestimento, e então eram dias e dias ele aplicando massas de cal com cimento sobre as paredes.- atividade chamada de rebocar...

__Eta trabalho duro - dizia o menino moço - mas ele achava gostoso.

Enquanto trabalhava ele cantava musicas românticas o dia inteiro, desejando que seu canto fosse ouvido pela "Vanda " uma morena magra e bonita, vizinha do seu local de trabalho. As vezes ele até se imaginava namorando com ela, beijando-a.

__Ah ! como seria bom - ele dizia.

A tarde quando o sol já estava quase se escondendo no horizonte ele retornava  à sua casa.

Lá chegando, ele ia dizendo :

__"Aqui" mãe; põe água para eu tomar banho

__Ponho sim, uai ! - respondia a sua mãe; dona Nicota..

Ele tomava banho numa bacia, não tinham chuveiro porque era coisa pra rico - diziam.

No banho ele usava sabão de pedra ao invés de sabonete, e se esfregava com um sabugo de milho ou com uma "bucha".

"Bucha " era um tipo de fruto com fibras porosas que nascia de uma trepadeira no seu quintal, que eles usavam para se esfregar no banho ".

Depois do banho ele vestia sua roupa de passear; era uma calça de brin-caqui e uma camisa amarela de tafetá.

Seu rosto estava corado por causa dos efeitos do sol quente que ele tinha enfrentado durante o dia. Nos cabelos ele passava brilhantina glostora e; depois penteava-os, deixando-os bem lisos e esticados para trás. Finalmente ele colocava algumas gotas de perfume no corpo - os brotos gostam - ele falava.

As garotas, as gatinhas, as meninas da época eram chamadas de brotos, ou brotinhos...

Nessas alturas sua mãe já tinha posto a sua janta na mesa - não se dizia jantar, porque era coisa de gente metida!  O prato se compunha de feijão, arroz, farinha de milho, torresmo e couve.

Depois da janta ele saia galante pelas ruas de Campestre, demorava quinze minutos andando a pé, para chegar no centro da cidade.


 continua        

 



Escrito por Manoel Caetano Donini às 11h34
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